Não vai dar tempo… a morte chega antes que a aposentadoria para a população negra em São Paulo

No post anterior tratei sobre como o discurso da reforma da previdência e do aumento da expectativa de vida dos brasileiros não batem com a realidade dos municípios brasileiros, de como a conta não fecha e dos interesses por trás da reforma. Neste post irei tratar sobre a cidade de São Paulo, suas desigualdades e a relação disso com a reforma da previdência.

É  conhecida a desigualdade presente na cidade de São Paulo, com os distritos periféricos sendo os mais pobres, com a ausência de políticas públicas de qualidade, o baixo índice de equipamentos públicos, a falta de saneamento básico, de transporte de qualidade, de empregos, os alto índices de violência e a falta de acesso a educação e a saúde. Já os distritos centrais e da região oeste são em sua maioria os mais ricos e desenvolvidos. É estreita a relação entre a expectativa de vida e indicadores sociais, quanto melhor a qualidade dos indicadores sociais, maior é a expectativa de vida.

Dito isso,  irei analisar a média de idade com que as pessoas morrem ou dito de outra forma o tempo médio de vida em São Paulo, o objetivo é demonstrar como as pessoas negras em sua maioria vivem menos que as pessoas brancas. As pessoas negras morrem em sua maioria antes dos 65 anos, que é a idade mínima para se aposentar pela reforma da previdência proposta.

Algumas informações importantes antes de começar: a mortalidade infantil(menos de 1 ano de idade) não foi considerada nesse estudo. Os dados são de 2014, do PRO-AIM – Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade.

A legenda dos mapas é a mesma para todos os mapas para facilitar a comparação. Os valores dentro dos parênteses  são as idades médias ao morrer naquele distrito.

Tempo médio de vida e idade média ao morrer são colocados no texto com o mesmo sentido.

Vamos aos mapas:

(Clique no mapa para vê-los maior)



Os mapas acima exibem a idade média em que as pessoas morrem por distrito, fica claro que as periferias vivem menos que a região central e menos ainda do que a zona oeste, onde o tempo médio de vida passa dos 70 anos, já na periferia fica em torno dos 55 anos.

Já nos mapas abaixo vemos uma comparação entre os distritos que ultrapassam a média de tempo de vida de 65 anos e os que não passam dos 65 anos, ou seja, é grande a chance de morrer antes de conseguir se aposentar.

Todas as pessoas - Idade média ao morrer maior que 65 anos

Idade média ao morrer maior que 65 anos


Todas as pessoas - Idade média ao morrer menor que 65 anos

Idade média ao morrer menor que 65 anos


Já no mapa abaixo são exibidos os distritos onde a idade média ao morrer passa dos 75 anos, que é a idade mínima para conseguir se aposentar com 100% da aposentadoria, para isso é preciso trabalhar 49 anos ininterruptos, começando aos 16 anos. Vemos que são pouquíssimos os distritos onde o tempo médio de vida passa dos 75 anos e que esses distritos estão concentrados na região “nobre” da cidade.

Todas as pessoas - Idade média ao morrer maior que 75 anos

Idade média ao morrer maior que 75 anos.



Pessoas brancas

Nos dois mapas a seguir são sobre a idade média ao morrer das pessoas brancas, no primeiro são exibidos os distritos onde a idade média passa dos 65 anos e no segundo onde não passa dos 65 anos.

(apenas alguns rótulos dos distritos foram exibidos para evitar a poluição visual nos mapas)

Pessoas brancas - Idade média ao morrer maior que 65 anos

Pessoas brancas – Idade média ao morrer maior que 65 anos


Pessoas brancas - Idade média ao morrer menor que 65 anos

Pessoas brancas – Idade média ao morrer menor que 65 anos


Nos mapas acima vemos que o tempo de vida médio das pessoas brancas supera a média da população geral, mas ainda assim temos nas periferias distritos onde a idade média ao morrer não passa dos 65 anos entre a população branca.

Pessoas negras

Agora os mapas sobre a população negra, que foi o que motivou a pesquisa e esse post, meu objetivo foi saber como a reforma da previdência afetaria a população negra.

Vemos pelo mapa a seguir que na maioria dos distritos a idade média ao morrer das pessoas negras é menor que 65 anos, já quando falamos das pessoas brancas a idade média ao morrer é superior aos 65 anos, ou seja, as pessoas brancas vivem em média mais tempo do que as pessoas negras em todos os distritos de São Paulo (mais adiante há um mapa fazendo essa comparação)

(apenas alguns rótulos dos distritos foram exibidos para evitar a poluição visual nos mapas)

Pessoas negras - Idade média ao morrer menor que 65 anos

Pessoas negras – Idade média ao morrer menor que 65 anos

Quando olhamos os distritos onde a média é superior a 65 anos anos a situação se torna mais grave, em apenas 10 distritos o tempo média de vida dos negros é superior a 65 anos.

Pessoas negras - Idade média ao morrer maior que 65 anos

Por fim, temos os distritos onde o tempo médio de vida dos negros supera 75 anos, como vocês podem ver abaixo:

Pessoas negras - Idade média ao morrer maior que 75 anos

Pessoas negras – Idade média ao morrer maior que 75 anos


É isso mesmo, não tem erro no mapa acima, de fato não existe um distrito em São Paulo onde o tempo de vida médio dos negros passa dos 75 anos! Isso quer dizer que ninguém vive mais que 75 anos? não, quer dizer que em média as pessoas negras morrem antes de completar 75 anos.

Nos dois últimos mapas temos a diferença entre o tempo de vida médio de brancos e negros, vemos que o padrão de desigualdades sociais se repete, sendo menor a diferença entre anos de vida nas periferias e maior no centro e na região oeste passando de 20 anos em alguns bairros e chegando a 34 no Morumbi.

diferença de anos entre brancos e negros

Diferença em anos entre o tempo de vida médio de brancos e negros


diferença de anos entre brancos e negros 2

Diferença em anos entre o tempo de vida médio de brancos e negros



Pelos mapas vimos que a idade média ao morrer ou o tempo médio de vida variam conforme a região e conforme a raça, sendo que as periferias vivem menos e as pessoas negras vivem menos ainda na cidade de São Paulo. A ausência de acesso a serviços básicos como saúde, educação, saneamento básico, lazer, entre outros “puxam” o tempo médio de vida para baixo, fazendo com que negros e negras vivam menos que o restante da população na capital e no restante do país, pois se esse cenário é assim em São Paulo, nas outras cidades a realidade não deve ser diferente. A violência a que os negros e principalmente os jovens negros estão expostos contribuem para que a expectativa de vida seja menor.

“a cada três assassinatos, dois são de negros. Somando-se a população residente nos 226 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, calcula-se que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos.”

Quando pegamos as expectativas de vida do IBGE para São Paulo que é de 77 anos ao nascer e de mais 19 anos de vida ao completar 65 anos, chegando a 84 anos,  e as comparamos com os dados de mortalidade em São Paulo, vemos que essa estimativa não condiz com a realidade, a diferença é enorme. O motivo para essa diferença são duas, o primeiro é o recorte usado pelo IBGE que é ao nível estadual e não municipal e o segundo que é o mais grave, é a ausência de recorte racial, não é possível falar de reforma da previdência sem falar que são as pessoas negras que morrem em sua maioria antes de chegar aos 65 anos por conta de condições desiguais criadas durante 300 anos de escravidão e que são mantidas até hoje pelo racismo institucional brasileiro. A ausência de políticas públicas efetivas e a violência policial e institucional  contra os negros fazem com que sua expectativa de vida esteja em índices de 50 anos atrás.

Por fim, um gráfico comparando as mortes por idade entre brancos e negros na cidade de São Paulo:

IDADE MEDIA AO MORRER porcentagem

Pelas “curvas da morte” vemos que a população negra morre mais entre 50 e 70 anos, com o pico em 59 anos. Já as pessoas brancas morrem mais a partir dos 70 anos, com o pico em 85 anos, o que significa que os brancos “morrem mais tarde” e vivem mais que os negros, por isso a maior quantidade de morte de brancos nessa idade(70 – 85) do que de negros. As condições postas durante a vida da população negra não permitem que a sua maioria sobreviva até os 85 anos.Reparem que enquanto a curva dos brancos sobe a dos negros decai a partir dos 70 anos. Em uma sociedade igualitária com a mesma qualidade de vida entre brancos e negros, as curvas teriam uma forma semelhante.

Atenção para a juventude negra no gráfico entre 13 e 29 anos, a morte de negros nessa faixa de idade tem uma forte aumento enquanto a dos brancos não, isso se deve a violência a que os jovens negros estão expostos no país.

Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.

https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/

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