Onde estão as mulheres negras na USP?

No último post abordei a distribuição por gênero nos cursos da USP e de como eles refletem a visão da sociedade de “profissões de homens” e “profissões de mulheres”, entretanto o post ficou incompleto (o que foi lembrado pelos leitores nos comentários) ele não abordou o fato que além da divisão por gênero, existe ainda a divisão por gênero e raça.

As mulheres negras sofrem um preconceito duplo, são vítimas do racismo e do machismo e  de todas consequências sociais desse preconceito, o não acesso ao ensino superior é uma das manifestações desse preconceito  duplo, que perpassa pela falta de acesso a educação, saúde,  moradia de qualidade,condições de trabalho e violência:

“Dados de violência contra mulheres negras são um exemplo do quanto elas estão vulneráveis. Segundo o “Mapa da Violência 2015 – Homicídios de Mulheres no Brasil”, divulgados em 9 de novembro, a ocorrência de assassinatos de negras aumentou 54,2% em 10 anos (2003 – 2013), enquanto que número de homicídios de mulheres brancas no mesmo período caiu 9,8%.”

A USP mantém esse duplo preconceito com as mulheres negras, por mais que exista a divisão de gênero entre os cursos, as mulheres brancas ainda conseguem ter acesso a USP, para as mulheres negras a situação é ainda pior, elas não conseguem ao menos ter acesso a USP a não ser que para trabalhar como terceirizadas da limpeza ou segurança.

Como destaca a Stephanie Ribeiro:

“A mulher negra é o símbolo da marginalização. Além do machismo, enfrenta o racismo. Nós somos, numa escala de hierarquia, três vezes mais atingidas pela violência e a discriminação. Se as mulheres brancas são ‘privilegiadas’ de certa forma pela cor da pele, e os homens negros, pelo machismo, as mulheres negras sofrem mais”.

Em novembro de 2015 houve a Marcha das Mulheres Negras que foram até Brasília exigir políticas públicas voltadas para as mulheres negras. Iêda Leal, secretária de Combate ao Racismo da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) destaca:

“As mulheres negras estão marchando para dar voz à nossa reação, mostrando que chega e que não vamos mais aceitar e nos conformar com a situação”, diz Iêda. “O racismo é crime e existe no Brasil. Queremos iniciar um debate nas escolas, queremos que o Estado nos proteja com ações afirmativas, seja nas áreas de saúde, trabalho, moradia como na segurança.”

Alzira Rufino, coordenadora da Casa de Cultura da Mulher Negra, fala sobre as dificuldades enfrentadas pela mulher negra no Brasil:

“Eu ouço relatos todos os dias, todas as horas, de uma grande discriminação em todas as áreas. A mulher negra, a meu ver, é tratada de maneira pejorativa pelas pessoas e no mercado de trabalho”.

“Ela pode ter curso universitário, mestrado, mas não consegue emprego devido à cor da pele, ao tipo do cabelo, a sua maneira de ser. Elas não conseguem entrar em uma loja no shopping sem receberem olhares desconfiados.”

“Somos muito mais fáceis de se exterminar. As mulheres negras são mortas por facadas, e isso é um assunto extremamente sério. O Brasil ainda não abriu os olhos para isso.”

“As mulheres negras estão se rebelando. Ainda há muito a fazer e pouco a se comemorar. Agora é que o assunto começa a ser visto com mais seriedade. Todas nós, mulheres negras, vamos resistir.”

*As falas acima são da reportagem de Tahiane Stochero para o G1.

No último post coloquei uma tabela com os cursos onde haviam mais mulheres e os cursos que haviam menos mulheres, posto novamente as mesmas tabelas com uma coluna a mais que mostra a porcentagem de mulheres negras nesse total de mulheres.

Fica evidente que mesmo nos cursos com maior porcentagem de mulheres, a quantidade de mulheres negras não acompanha essa proporção, como é o caso de Fisioterapia por exemplo, que não há nenhuma mulher negra apesar do curso ser formado por 80% de mulheres ou Turismo e Editoração que são formados por 75% de mulheres mas que só possuem uma mulher negra entre suas alunas ou Medicina Veterinária, que entre suas 103 alunas só possuem 5 negras.

Cursos com maior porcentagem de mulheres:

Curso Total de Mulheres % Mulheres negras
   
Terapia Ocupacional 92,00% 9,00%
Fonoaudiologia 92,00% 13,00%
Relações Públicas 84,00% 12,00%
Pedagogia 81,67% 14,00%
Fisioterapia 80,00% 0,00%
Turismo 76,67% 4,00%
Editoração 75,00% 7,00%
Medicina Veterinária 73,57% 5,00%
Arquitetura e urbanismo 70,00% 7,00%

Cursos com menor porcentagem de mulheres:

Curso Total de Mulheres % Mulheres negras
Esporte 22,00% 9,00%
Matemática 20,00% 17,00%
Matemática Aplicada 20,00% 25,00%
Física 19,38% 19,00%
Ciências da Computação 18,00% 11,00%
Engenharia Elétrica 14,29% 15,00%
Matemática Aplicada e Computacional 14,00% 14,00%
Geologia 12,00% 17,00%
Engenharia da Computação e Elétrica 8,57% 17,00%
Engenharia Mecânica – Automação e Sistemas 8,33% 0,00%
Engenharia Mecânica e Engenharia Naval 7,27% 13,00%

Vamos aos mapas:

Mulheres não negras na USP

Exibindo as mulheres não negras na USP


 

Mulheres negras e não negras na USP

Exibindo as mulheres negras na USP


 

Mulheres negras e não negras na USP

Exibindo as mulheres negras e não negras na USP


 

Homens não negros na USP

Exibindo os homens não negros na USP


 

Homens negros na USP

Exibindo os homens negros na USP


 

Homens negros e não negros na USP

Exibindo os homens negros e não negros na USP

**Na legenda usei os termos não negro e não negra para identificar no mesmo grupo pessoas brancas e amarelas,  pois no Brasil eles são lidos socialmente de maneira semelhante.

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