Não vai dar tempo… a morte chega antes que a aposentadoria para a população negra em São Paulo

No post anterior tratei sobre como o discurso da reforma da previdência e do aumento da expectativa de vida dos brasileiros não batem com a realidade dos municípios brasileiros, de como a conta não fecha e dos interesses por trás da reforma. Neste post irei tratar sobre a cidade de São Paulo, suas desigualdades e a relação disso com a reforma da previdência.

É  conhecida a desigualdade presente na cidade de São Paulo, com os distritos periféricos sendo os mais pobres, com a ausência de políticas públicas de qualidade, o baixo índice de equipamentos públicos, a falta de saneamento básico, de transporte de qualidade, de empregos, os alto índices de violência e a falta de acesso a educação e a saúde. Já os distritos centrais e da região oeste são em sua maioria os mais ricos e desenvolvidos. É estreita a relação entre a expectativa de vida e indicadores sociais, quanto melhor a qualidade dos indicadores sociais, maior é a expectativa de vida.

Dito isso,  irei analisar a média de idade com que as pessoas morrem ou dito de outra forma o tempo médio de vida em São Paulo, o objetivo é demonstrar como as pessoas negras em sua maioria vivem menos que as pessoas brancas. As pessoas negras morrem em sua maioria antes dos 65 anos, que é a idade mínima para se aposentar pela reforma da previdência proposta.

Algumas informações importantes antes de começar: a mortalidade infantil(menos de 1 ano de idade) não foi considerada nesse estudo. Os dados são de 2014, do PRO-AIM – Programa de Aprimoramento das Informações de Mortalidade.

A legenda dos mapas é a mesma para todos os mapas para facilitar a comparação. Os valores dentro dos parênteses  são as idades médias ao morrer naquele distrito.

Tempo médio de vida e idade média ao morrer são colocados no texto com o mesmo sentido.

Vamos aos mapas:

(Clique no mapa para vê-los maior)



Os mapas acima exibem a idade média em que as pessoas morrem por distrito, fica claro que as periferias vivem menos que a região central e menos ainda do que a zona oeste, onde o tempo médio de vida passa dos 70 anos, já na periferia fica em torno dos 55 anos.

Já nos mapas abaixo vemos uma comparação entre os distritos que ultrapassam a média de tempo de vida de 65 anos e os que não passam dos 65 anos, ou seja, é grande a chance de morrer antes de conseguir se aposentar.

Todas as pessoas - Idade média ao morrer maior que 65 anos

Idade média ao morrer maior que 65 anos


Todas as pessoas - Idade média ao morrer menor que 65 anos

Idade média ao morrer menor que 65 anos


Já no mapa abaixo são exibidos os distritos onde a idade média ao morrer passa dos 75 anos, que é a idade mínima para conseguir se aposentar com 100% da aposentadoria, para isso é preciso trabalhar 49 anos ininterruptos, começando aos 16 anos. Vemos que são pouquíssimos os distritos onde o tempo médio de vida passa dos 75 anos e que esses distritos estão concentrados na região “nobre” da cidade.

Todas as pessoas - Idade média ao morrer maior que 75 anos

Idade média ao morrer maior que 75 anos.



Pessoas brancas

Nos dois mapas a seguir são sobre a idade média ao morrer das pessoas brancas, no primeiro são exibidos os distritos onde a idade média passa dos 65 anos e no segundo onde não passa dos 65 anos.

(apenas alguns rótulos dos distritos foram exibidos para evitar a poluição visual nos mapas)

Pessoas brancas - Idade média ao morrer maior que 65 anos

Pessoas brancas – Idade média ao morrer maior que 65 anos


Pessoas brancas - Idade média ao morrer menor que 65 anos

Pessoas brancas – Idade média ao morrer menor que 65 anos


Nos mapas acima vemos que o tempo de vida médio das pessoas brancas supera a média da população geral, mas ainda assim temos nas periferias distritos onde a idade média ao morrer não passa dos 65 anos entre a população branca.

Pessoas negras

Agora os mapas sobre a população negra, que foi o que motivou a pesquisa e esse post, meu objetivo foi saber como a reforma da previdência afetaria a população negra.

Vemos pelo mapa a seguir que na maioria dos distritos a idade média ao morrer das pessoas negras é menor que 65 anos, já quando falamos das pessoas brancas a idade média ao morrer é superior aos 65 anos, ou seja, as pessoas brancas vivem em média mais tempo do que as pessoas negras em todos os distritos de São Paulo (mais adiante há um mapa fazendo essa comparação)

(apenas alguns rótulos dos distritos foram exibidos para evitar a poluição visual nos mapas)

Pessoas negras - Idade média ao morrer menor que 65 anos

Pessoas negras – Idade média ao morrer menor que 65 anos

Quando olhamos os distritos onde a média é superior a 65 anos anos a situação se torna mais grave, em apenas 10 distritos o tempo média de vida dos negros é superior a 65 anos.

Pessoas negras - Idade média ao morrer maior que 65 anos

Por fim, temos os distritos onde o tempo médio de vida dos negros supera 75 anos, como vocês podem ver abaixo:

Pessoas negras - Idade média ao morrer maior que 75 anos

Pessoas negras – Idade média ao morrer maior que 75 anos


É isso mesmo, não tem erro no mapa acima, de fato não existe um distrito em São Paulo onde o tempo de vida médio dos negros passa dos 75 anos! Isso quer dizer que ninguém vive mais que 75 anos? não, quer dizer que em média as pessoas negras morrem antes de completar 75 anos.

Nos dois últimos mapas temos a diferença entre o tempo de vida médio de brancos e negros, vemos que o padrão de desigualdades sociais se repete, sendo menor a diferença entre anos de vida nas periferias e maior no centro e na região oeste passando de 20 anos em alguns bairros e chegando a 34 no Morumbi.

diferença de anos entre brancos e negros

Diferença em anos entre o tempo de vida médio de brancos e negros


diferença de anos entre brancos e negros 2

Diferença em anos entre o tempo de vida médio de brancos e negros



Pelos mapas vimos que a idade média ao morrer ou o tempo médio de vida variam conforme a região e conforme a raça, sendo que as periferias vivem menos e as pessoas negras vivem menos ainda na cidade de São Paulo. A ausência de acesso a serviços básicos como saúde, educação, saneamento básico, lazer, entre outros “puxam” o tempo médio de vida para baixo, fazendo com que negros e negras vivam menos que o restante da população na capital e no restante do país, pois se esse cenário é assim em São Paulo, nas outras cidades a realidade não deve ser diferente. A violência a que os negros e principalmente os jovens negros estão expostos contribuem para que a expectativa de vida seja menor.

“a cada três assassinatos, dois são de negros. Somando-se a população residente nos 226 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes, calcula-se que a possibilidade de um adolescente negro ser vítima de homicídio é 3,7 vezes maior em comparação com os brancos.”

Quando pegamos as expectativas de vida do IBGE para São Paulo que é de 77 anos ao nascer e de mais 19 anos de vida ao completar 65 anos, chegando a 84 anos,  e as comparamos com os dados de mortalidade em São Paulo, vemos que essa estimativa não condiz com a realidade, a diferença é enorme. O motivo para essa diferença são duas, o primeiro é o recorte usado pelo IBGE que é ao nível estadual e não municipal e o segundo que é o mais grave, é a ausência de recorte racial, não é possível falar de reforma da previdência sem falar que são as pessoas negras que morrem em sua maioria antes de chegar aos 65 anos por conta de condições desiguais criadas durante 300 anos de escravidão e que são mantidas até hoje pelo racismo institucional brasileiro. A ausência de políticas públicas efetivas e a violência policial e institucional  contra os negros fazem com que sua expectativa de vida esteja em índices de 50 anos atrás.

Por fim, um gráfico comparando as mortes por idade entre brancos e negros na cidade de São Paulo:

IDADE MEDIA AO MORRER porcentagem

Pelas “curvas da morte” vemos que a população negra morre mais entre 50 e 70 anos, com o pico em 59 anos. Já as pessoas brancas morrem mais a partir dos 70 anos, com o pico em 85 anos, o que significa que os brancos “morrem mais tarde” e vivem mais que os negros, por isso a maior quantidade de morte de brancos nessa idade(70 – 85) do que de negros. As condições postas durante a vida da população negra não permitem que a sua maioria sobreviva até os 85 anos.Reparem que enquanto a curva dos brancos sobe a dos negros decai a partir dos 70 anos. Em uma sociedade igualitária com a mesma qualidade de vida entre brancos e negros, as curvas teriam uma forma semelhante.

Atenção para a juventude negra no gráfico entre 13 e 29 anos, a morte de negros nessa faixa de idade tem uma forte aumento enquanto a dos brancos não, isso se deve a violência a que os jovens negros estão expostos no país.

Em 2012, 56.000 pessoas foram assassinadas no Brasil. Destas, 30.000 são jovens entre 15 a 29 anos e, desse total, 77% são negros. A maioria dos homicídios é praticado por armas de fogo, e menos de 8% dos casos chegam a ser julgados.

https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/

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Cansado demais para trabalhar mas muito jovem para se aposentar: a perversidade da reforma da previdência

A PEC da reforma da Previdência proposta pelo governo Temer altera as regras da aposentadoria no país, pelas novas regras será necessário ter no mínimo 65 anos de idade e 25 anos de contribuição para se aposentar, atenção que é no mínimo 65 anos de idade e 25 anos de contribuição e não no mínimo 65 anos ou 25 de contribuição.

Caso a pessoa se aposente com 65 anos e 25 de contribuição, ela só terá direito a 76% do valor total do seu benefício, para se aposentar com 100% do benefício ela terá que contribuir com a previdência por um total de 49 anos. Pelas novas regras há o aumento de 1% no benefício por cada ano de contribuição até completar 100%, sendo assim são necessário mais 24 anos de contribuição.

Por exemplo, para se aposentar na idade mínima que é 65 anos e com 100% por benefício, a pessoa terá que começar a contribuir aos 16 anos de idade e não parar por 49 anos(16+49=65), ou seja, não poderá ficar desempregado um único mês durante esses 49 anos, o que é impossível num país com instabilidade que sofre com crises econômicas e altas taxas de desemprego de tempos em tempos.

As novas regras da previdência impostas pela PEC 287 não consideram a diferença entre homens e mulheres, sendo assim a idade mínima para ambos é de 65 anos. A técnica da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Joana Mostafá destaca a reforma é ainda mais prejudicial para as mulheres:

No caso das mulheres, a divisão sexual do trabalho, em que elas assumem grande parte dos afazeres domésticos, faz com que elas tenham mais dificuldade de acessar o mercado formal e, portanto, mais dificuldade de acumular os anos de contribuição. Hoje, 15 anos de contribuição já exclui muita gente. Para as domésticas, por exemplo, é muito difícil. Aumentar para 25 anos vai excluir ainda mais, só os mais estruturados no mercado de trabalho vão conseguir.

[…]A todas as mulheres é atribuído socialmente um papel, que é o papel de cuidados: cuidar da casa, das crianças, dos idosos, das pessoas com deficiência. Não importa se ela efetivamente vai executar esses cuidados, se ela é mulher, é atribuído a ela esse papel. A questão do cuidado é muito ampla, não dá para considerar só o evento maternidade.

As mulheres jovens, sem filhos, se deparam no mercado de trabalho com uma taxa de desemprego, por exemplo, muito maior que a dos homens, porque o mercado já efetiva o preconceito e a desigualdade de gênero no sentido de achar que essa mulher, um dia, se afastará da sua carreira. Então eles preferem os homens, porque aos homens não é atribuído esse papel social do cuidado.

Já Marcelo Caetano, secretário da Previdência no Ministério da Fazenda e principal formulador da reforma diz: “As mulheres custam mais para a Previdência, porque vivem mais. A Previdência não vai resolver o problema de gênero no Brasil nem nenhuma outra forma de discriminação.”

Fica claro que para Marcelo Caetano pouco importa a dupla jornada imposta as mulheres, o preconceito no mercado de trabalho e a maior dificuldade em acumular os anos de contribuição, a previdência para ele é apenas uma questão “técnica”. É interessante notar que na mesma entrevista o secretário muda o tom para falar dos militares:

Pergunta: As aposentadorias dos militares não são atingidas pela reforma, mas o governo disse que vai elaborar um projeto de lei sobre esse assunto. Quando isso deve ocorrer?
Resposta: Não há prazo

Pergunta:Os militares terão um sistema similar aos dos demais brasileiros, com idade mínima e maior tempo de contribuição?
Resposta:Não tenho essa definição. Essa discussão ainda está em aberto.

O principal discurso usado para justificar a reforma da previdência é que a população brasileira está vivendo mais e que as pessoas se aposentam muito cedo, sendo que poderiam estar trabalhando e contribuindo com a previdência ao invés de aproveitar sua aposentaria. Ao olharmos a expectativa de vida do brasileiro ao nascer vemos que ela é de 75 anos, entretanto o Brasil é um país fundando na desigualdade e ela persiste até hoje, sendo assim a expectativa de vida não será a mesma para todos as pessoas. O local de moradia, acesso a saneamento básico, educação, alimentação, segurança, saúde terão forte influência na expectativa de vida dessas pessoas.

O IBGE projeta as expectativas de vida por estado mas isso não é suficiente pois se já existem fortes desigualdades dentro de um mesmo município o que dirá dentro de um mesmo estado, sendo assim precisamos saber a expectativa de vida por município e não apenas por estado, afinal são apenas 26 e mais de 5mil municípios. Conhecendo a realidade municipal teremos uma visão melhor de como essas populações serão afetadas pela reforma e porque ela é tão prejudicial.

Vamos aos mapas:


expectativa de vida por municipio

Municípios com expectativa de vida menor que 75 anos

Municípios com expectativa de vida menor que 75 anos


Pelos dois mapas acima vemos que a grande maioria dos municípios brasileiros tem expectativa de vida menor que 75 anos, ou seja, em 4055 dos 5070 municípios a expectativa é que a população não consiga se aposentar com 100% da aposentadoria, mesmo que conseguissem cumprir a exigência absurda de contribuir por 49 anos da sua vida com a previdência, não teriam como usufruir da sua aposentadoria e finalmente descansar.

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Municípios com expectativa de vida menor que 70 anos


No mapa acima vemos os municípios com expectativa de vida menor que 70 anos, são 803 no total, é visível que os municípios da região norte e nordeste possuem as menores expectativas de vida no país. Com a reforma da previdência os aposentados desses municípios terão alguns poucos anos para aproveitar a sua aposentadoria recebendo só 76% do benefício,  isso se não precisarem continuar trabalhando para conseguirem uma porcentagem maior no benefício.

Já no mapa abaixo vemos os municípios com expectativa de vida maior que 76 anos, são 731 no total e estão concentrados na região sul e sudeste. Sendo assim, apenas 13% dos municípios brasileiros tem expectativa de vida maior que 76 anos.

Municípios com expectativa de vida maior que 76 anos

Municípios com expectativa de vida maior que 76 anos

A partir dos mapas vemos que a expectativa de vida do brasileiro nos municípios difere muito do discurso de defesa da reforma da previdência, onde é vendida uma imagem de uma população que vive ativamente até seus 80 anos e não de uma população onde a vida acaba antes da idade de se aposentar.

Para finalizar, um trecho que deixa claro os interesses por trás da reforma da previdência e porque ela beneficia a previdência privada:

No início do ano, antes de a reforma entrar em pauta, a previsão era de estagnação ou baixa. No primeiro trimestre, o setor registrou queda de 13% na captação de novos segurados. Mesmo assim, não se pôde reclamar. Os investimentos bateram R$ 21,5 bilhões no período, sendo os planos individuais os que mais cresceram em renda.

Mas foi em outubro que a festa começou. A captação foi 57% acima da registrada no mesmo mês em 2015, acumulando R$8,8 bilhões. Desses, R$ 150,94 milhões foram investidos em planos de previdência privada para menores de idade, uma evidência clara de que a elite econômica já está criando estratégias de manter a qualidade de vida de seus filhos.

Os afetados pelo fechamento das farmácias públicas pela gestão Dória

O prefeito Dória e seu secretário Wilson Pollara tem como missão atual fechar as farmácias municipais e passar a distribuição gratuita de medicamentos para a iniciativa privada, atualmente a distribuição dos medicamentos é feita pelas farmácias localizadas nas Unidade Básica de Saúde (UBS) e  Assistência Médica Ambulatorial (AMA).

O discurso utilizado por Dória e e seu secretário Wilson Pollara é que o sistema atual não funciona, tem alto custo, problemas logísticos e existem faltas frequentes de medicamentos, sendo assim, a solução é passar a distribuição para as redes privadas que tem o conhecimento necessário para executar essa tarefa perfeitamente. Doria e Pollara querem que as grandes redes Drogaraia, Drogasil, Drogaria São Paulo e Onofre cuidem da distribuição dos medicamentos. Em entrevista, Pollara diz “Nós não conseguimos entregar remédio nas Unidades Básicas de Saúde. É impossível competir com a rede logística das farmácias (privadas).”, nesta mesma matéria são citadas as grandes redes novamente.

Em postagem no Facebook Dória escreve:

[…]o Programa Remédio Rápido, que fará com que as receitas sejam emitidas nas UBSs e a retirada dos remédios seja feita nas grandes redes de farmácias espalhadas pela cidade, com mais agilidade e praticidade. Já fizemos reuniões com vários grupos de empresas da área e, felizmente, a aderência tem sido surpreendentemente positiva.[…]

É de se estranhar essa postura de Dória, pois, se existe um problema de distribuição é necessário identificá-lo e resolvê-lo ao invés de simplesmente passar a distribuição para as redes privadas. Inclusive essa a opinião da promotora Dora Strilicherk ao investigar a falta de remédios na rede pública em 2016.

“[…]há mais problema de gestão do que de falta de recursos nos dois sistemas.As farmácias informam órgãos centrais que haverá falta de medicação, mas a compra não é feita na velocidade adequada, diz a promotora.”Cabe a quem está acima hierarquicamente pegar essa informação e tomar a providência cabível. Se é sabido que se pode ter problemas com os prazos, é preciso planejar. Se comprar antes, não vai faltar”, diz Strilicherk.”

Outro fato importante é que o Ministério Público enviou em Janeiro um ofício solicitando que”divulguem, em até 40 dias, quais medicamentos estão em falta(em cada unidade) e qual o prazo para que sejam repostos e voltem a ficar disponíveis para a população”. É curioso notar que a Secretaria Municipal de Saúde não tem sistematizado os medicamentos em falta e qual o prazo para repor mas sabe que a melhor saída é passar para a gestão privada essa responsabilidade. Em que dados Dória e Wilson Pollara se fundamentam?

A partir do exposto, criei alguns mapas para analisar quem serão os principais afetados pelo fechamentos das farmácias e a transferência da distribuição dos medicamentos para a rede privada.

Nos mapas utilizei as três maiores redes privadas de farmácias em São Paulo, que são Drogaria São Paulo, Drogasil e Drogaraia, todas são tratadas como uma grande rede privada nos mapas. Já na rede pública estão unificadas as UBS e as AMAS. O endereço das farmácias foram obtidos a partir do site delas e os da UBS e AMAS do portal Geosampa da prefeitura, depois cada endereço foi transformado em um ponto no mapa.

Vamos aos mapas:

Localização das farmácias da rede pública e privada em São Paulo.jpeg

Nos dois mapas abaixo temos a área de cobertura de cada estabelecimento, quanto menor o polígono melhor, pois significa que a distância até percorrida a farmácia é menor e também uma área de cobertura menor por unidade, o que evita superlotação e a demora no atendimento.

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Área de cobertura das farmácias públicas (UBS e AMA) na rede municipal em São Paulo

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Área de cobertura das principais redes de farmácias privadas em São Paulo

 

Em seguida dois mapas de calor comparando a presença das redes públicas e privadas, eles monstram aonde há uma concentração das farmácias, sendo o vermelho “mais quente”, amarelo o “morno” e o azul “o mais frio”.


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Mapa de calor das farmácias públicas da rede municipal em São Paulo


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Mapa de calor das principais redes de farmácias privadas em São Paulo


No mapa abaixo é analisado a distância que as pessoas terão que percorrer com o fechamento das farmácias das UBS e AMA pela gestão Dória.

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Distância da rede pública de farmácias para a rede privada mais próxima

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Presença das farmácias públicas nos distritos em São Paulo


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Presença das farmácias das redes privadas nos distritos em São Paulo

Pelos mapas acima fica claro que as grandes redes estão concentradas no centro e nas regiões mais ricas e que os mais afetados pelos fechamentos das farmácias públicas municipais serão as periferias, os mais pobres, aqueles que não podem arcar com um plano de saúde e dependem do SUS e o idosos. Dória inclusive tem planos para limitar o benefício do passe livre para os idosos, fazendo com que sejam duplamente afetados pela suas políticas.

Quando olhamos o que a Secretária de Municipal de Saúde fez nos últimos dois anos para aprimorar a logística dos medicamentos:

O processo logístico de uma Rede de Saúde Municipal composta por 976 unidades espalhadas em um território de 1.509 Km2[…]e que deve atender, potencialmente, cerca de 11 milhões de habitantes[…]

As 566 farmácias da Prefeitura de São Paulo são responsáveis por entregar 279 tipos de medicamentos, dispensando cerca de 28 milhões de receitas por ano – há 10 anos, em 2005, esse número era de 9.660.547. Entre medicamentos para dispensação, medicamentos para uso interno nas unidades de saúde e insumos em geral – luvas, aventais, etc –, a logística da SMS para Atenção Básica e Especializada movimenta 1.200 tipos de itens. Por ano, a logística da Secretaria transporta cerca de 2 bilhões de unidades de insumos e medicamentos, totalizando um valor de R$345 milhões em 2015, até novembro.

O núcleo duro dessas operações é a Central de Distribuição de Medicamentos e Correlatos (CDMEC), que fica no bairro do Jaguaré. Em um espaço de 13mil m², dez galpões armazenam todos os insumos, guardando diariamente cerca de R$ 90 milhões em produtos que chegam e saem quase ininterruptamente. Diariamente, 38 veículos climatizados circulam de 6h até 16h por toda a cidade.

As melhorias no sistema logístico e burocrático se traduzem em diminuição de custos – de até R$ 44,610 milhões potenciais para serem gastos na logística em 2015 até outubro, segundo um contrato flexível, a Prefeitura gastou apenas R$ 40,231 milhões. Foram economizados R$4,379 milhões para o Município, conferindo maior rapidez ao abastecimento das unidades e consequente maior acesso do cidadão aos medicamentos – entre junho e novembro deste ano, já houve uma queda de 65% nas queixas com relação à falta de medicamentos oferecidos pela Prefeitura na Ouvidoria Municipal.

[…]o reabastecimento às unidades já foi mensal e passou a quinzenal; agora, funciona a cada 8 dias úteis e deve passar a semanal, já havendo um piloto para testar o novo sistema em cinco unidades[…]

[…Esta maior precisão quanto ao consumo real das unidades também permitiu que a Prefeitura fizesse, pela primeira vez em 2015, um planejamento anual de compras de insumos e medicamentos. Para 2016, além de analisar históricos de estoque e consumo, esse planejamento anual incluirá também histórico e projeção de preços dos produtos.

O planejamento, além de possibilitar uma melhor visão aos gestores, permite que se reduzam as compras emergenciais, ou seja, feitas sem os procedimentos normais de licitação e quando há situação crítica de desabastecimento. Em 2015, a porcentagem de compras emergenciais foi de apenas 3%[…]

Ora, Dória e o Secretário Wilson Pollara dizem que o sistema não funciona mas não apresentam dados. Alegam que a prefeitura gasta 500 milhões de reais com logística por ano, enquanto a gestão passada diz que gastou 40,23 milhões de reais com logística de janeiro a outubro de 2015. A conta não fecha. De qual fonte o novo prefeito tirou este dado de 500 milhões gastos com logística? Dória precisa apresentar esses números e fontes. Além disso, há os medicamentos e insumos usados pelas equipes dentro das unidades básicas de saúde que são distribuídos pelo mesmo processo logístico dos medicamentos que Dória quer extinguir. O que Dória irá fazer para garantir nas UBSs esses insumos e medicamentos para os atendimentos? Irá mandar comprar nas farmácias privadas também?

São 1.200 tipos de itens e 279 tipos de medicamentos entregues pelas farmácias da prefeitura, dispensando cerca de 28 milhões de receitas por ano e transportando cerca de 2 bilhões de unidades de insumos e medicamentos.Você não pode simplesmente dizer que isso não funciona e passar para a iniciativa privada sem apresentar dados confiáveis e estudos.

Outro aspecto importante que destaca o Sindicato dos Farmacêuticos:

“A assistência farmacêutica não é somente entrega de remédio. Você perderá o acompanhamento farmacêutico junto à equipe multidisciplinar que atende às suas necessidades na unidade pública de saúde. Isso afetará, por exemplo, a retirada de medicamentos em casos de dúvidas sobre as receitas – hoje, os técnicos e farmacêuticos entram em contato diretamente com os outros profissionais e sanam os problemas com mais agilidade, evitando que o paciente tenha que retornar ao médico apenas para pegar uma nova receita.”

Por fim, Dória faz muita propaganda em cima do programa “Remédio Rápido na Farmácia Amiga” mas não responde perguntas básicas sobre o como será feito o controle, a fiscalização, o preço de compra desses medicamentos, como a população será atendida, entre outras questões. Sobretudo, não responde como lidará com a ausência de farmácias privadas nas periferias, e as consequências dessa ausência para a população.

Prêmio Almerinda Farias Gama

Em dezembro o blog foi premiado com uma menção honrosa no prêmio Almerinda Farias Gama concedido pela Secretária Municipal de Promoção da Igualdade Racial(SMPIR), foi uma imensa satisfação receber a menção da SMPIR, essa secretaria que foi um bastião de resistência e defesa das políticas de igualdade social  e que é conhecida e respeitada por conta do seu trabalho. Apesar da nova gestão reduzir o status da SMPIR para coordenação,tenho certeza que a luta pela igualdade racial continuará forte pois entre seus membros estão pessoas conhecidas pela sua militância e atuação política.

 

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Mapa racial de pontos da Cidade de São Paulo

No mapa racial de São Paulo podemos ver que existe um “vazio” no centro da cidade quando se trata de pessoas negras, já as pessoas brancas ocupam o território de forma uniforme. Já quando olhamos para as periferias, vemos que a maioria da população negra se concentra nela.

Nos próximos posts vou continuar tratando sobre a questão racial na cidade São Paulo, dada a dimensão da cidade e da população, apenas um post não é suficiente, cruzarei dados de diversas fontes com os mapas raciais e postarei mapas por zonas para vermos como se dá a distribuição internamente nas regiões da cidade.

A seguir os mapas raciais da cidade de São Paulo:

 

Mapa racial de pontos cidade de São Paulo

Mapa racial da cidade de São Paulo


 

Mapa racial de pontos cidade de São Paulo

Mapa racial da cidade de São Paulo – Exibindo as pessoas pretas


 

Mapa racial da cidade de São Paulo

Mapa racial da cidade de São Paulo – Exibindo as pessoas pardas


 

Mapa racial da cidade de São Paulo - Exibindo as pessoas pretas

Mapa racial da cidade de São Paulo – Exibindo as pessoas brancas

 

A estreita relação entre raça, renda e local de moradia

“O lugar natural do grupo branco dominante são moradias amplas, espaçosas, situadas nos mais belos recantos da cidade ou do campo e devidamente protegidas por diferentes tipos de policiamento: desde os antigos feitores, capitães do mato, capangas, etc., até a polícia formalmente constituída. Desde a casa-grande e do sobrado, aos belos edifícios e residências atuais, o critério tem sido sempre o mesmo. Já o lugar natural do negro é o oposto, evidentemente: da senzala às favelas, cortiços, porões, invasões, alagados e conjuntos “habitacionais” (cujos modelos são os guetos dos países desenvolvidos) dos dias de hoje, o critério também tem sido simetricamente o mesmo: a divisão racial do espaço.”

Lélia Gonzalez – Lugar de negro

Em todos os mapas feitos até agora é visível que os negros ficam concentrados a certos espaços enquanto os brancos ocupam o território de forma uniforme. Os negros ocupam em sua maioria as periferias, as favelas e os conjuntos habitacionais, mesmo nos bairros ricos quando há concentração de negros eles estão restritos as favelas ou aos conjuntos habitacionais.

A partir da constatação acima, criei novos mapas de pontos para a zona sul do Rio de Janeiro, dessa vez comparando a raça das pessoas que vivem ali com a renda familiar per capita naquele setor. O objetivo é analisar a relação entre raça, renda e local de moradia na zona sul do Rio de Janeiro e responder se os negros além de morarem em locais mais precários que os brancos, ainda tem condições econômicas piores que eles.

Todos os dados foram obtidos a partir do censo do IBGE de 2010.

As classes sociais A, B, C, D e E foram definidas a partir dos dados do IBGE, utilizando a renda per capita em salários mínimos(SM) como parâmetro para a divisão das classes. O salário mínimo em 2010 era  R$510,00.

Classe: Renda:
A > 10 SM
B 5 a 10 SM
C 2 a 5 SM
D 1 a 2 SM
E 1/8 a 1 SM

 

Vamos aos mapas:

(clique na imagem para visualizar em tamanho real)

Pretos, Pardos e Brancos - satelite

Exibindo os Pretos, Pardos e Brancos


CLASSE A e B x D e E - SATELITE

Exibindo as Classes A e B x D e E


 

CLASSE D e E - SATELITE

Exibindo as Classes D e E


CLASSE A e B  - SATELITE

Exibindo as Classes A e B


A partir dos mapas acima vemos que os negros e as classes D e E se concentram nas mesmas regiões da zona sul, regiões estas que são favelas em sua maioria. Olhando a imagem que exibe apenas as classes A e B vemos que existe um “vazio” no mapa, esse “vazio” é onde se concentram as classe D e E,  que é o mesmo espaço ocupados pelos negros na zona sul do Rio de Janeiro, os morros. Já quando fazemos o exercício inverso e olhamos o mapa que exibe apenas a classes D e E, o “vazio” é agora na praia, em Copacabana e Ipanema, esses locais são ocupados pelas classes A e B, que é majoritariamente branca.

A seguir mais alguns mapas comparando raça, renda e local de moradia:

Classes A, B, C, D, E - Rio de Janeiro

Exibindo as Classes A, B, C, D e E


Pretos, Pardos e Brancos - Rio de Janeiro

Exibindo os Pretos, Pardos e Brancos


Classes A e B x D e E - Rio de Janeiro

Classes A e B x D e E


Pretos e Pardos x Classes A e B - Rio de Janeiro

Pretos e Pardos x Classes A e B


Brancos x Classes D e E - Rio de Janeiro

Brancos x Classes D e E


Pretos e Pardos x Classe D e E - Rio de Janeiro

Pretos e Pardos x Classes D e E


 

Pretos e Classe E - Rio de Janeiro

Pretos x Classe E


 

Brancos e Classe A - Rio de Janeiro

Brancos x Classe A


Classes D e E - Rio de Janeiro

Classes D e E


Classes A e B - Rio de Janeiro

Classes A e B


CLASSE A

Exibindo a Classe A


CLASSE C

Exibindo a Classe C


CLASSE E

Exibindo a Classe E